Polivitamínicos e o retorno da pílula do câncer

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Ano passado, vimos no Brasil a tentativa de aprovação de um medicamento capaz de curar o câncer (todos eles). Para quem lembra, estou falando da fosfoetanolamina, uma pílula que por um tempo ganhou grande destaque na mídia. Se você não está familiarizado com o assunto, escrevi uma série de textos que pode ser lidos aqui. Tempos depois, quase um ano, entre a ascensão e queda, surge o retorno. Desta vez como suplementos alimentar (veja aqui), já que como medicamento ela se provou ineficaz

Porém fica uma pergunta. Será que classificando como suplemento não merece alguma atenção? Ou, pelo menos, uma análise mais criteriosa dos riscos envolvidos? Na verdade, muitos artigos já apontam para isso a quase 20 anos. Fabricantes de vitaminas argumentam que uma dieta regular não contém vitaminas suficientes e que por isso é necessária uma suplementação alimentar. Além disso a crença da maioria das pessoas supõe que, no mínimo, o excesso de vitaminas não pode prejudicar. Acontece, entretanto, que os cientistas sabem que grandes quantidades de vitaminas suplementares podem ser bastante prejudiciais.

Em um estudo publicado no New England Journal of Medicine em 1994, 29.000 homens finlandeses, todos fumantes, receberam diariamente vitamina E, beta caroteno, ambos ou um placebo. O estudo constatou que aqueles que tinham tomado beta-caroteno durante cinco a oito anos foram mais propensos a morrer de câncer de pulmão ou doença cardíaca [1].

Dois anos mais tarde, a mesma revista publicou outro estudo sobre suplementos vitamínicos. Nele, 18.000 pessoas que estavam em um risco alto de câncer de pulmão por causa da exposição ao amianto ou fumarem. Todos receberam uma combinação de vitamina A e beta-caroteno, ou um placebo. A pesquisa foi interrompida quando descobriram que o risco de morte por câncer de pulmão para aqueles que tomaram as vitaminas foi 46 por cento maior [2].

Em 2004, uma revisão de 14 ensaios randomizados para a base de dados Cochrane encontrou que as vitaminas suplementares A, C, E e beta caroteno, e um mineral, selênio, tomadas para prevenir cancros intestinais, na verdade aumentaram a mortalidade [3].

Outra revisão, publicada em 2005 no Annals of Internal Medicine, descobriu que em 19 ensaios de com 136.000 pessoas, suplemento de vitamina E aumentaram a mortalidade. Também naquele ano, um estudo de pessoas com doença vascular ou diabetes descobriu que a vitamina E aumentou o risco de insuficiência cardíaca[4]. E em 2011, um estudo publicado no Journal of the American Medical Association associou suplementos de vitamina E com o aumento do risco de cancro da próstata [5].

O que explica essa conexão entre vitaminas suplementares e aumento das taxas de câncer e mortalidade? Os antioxidantes!

Um antioxidante é uma molécula capaz de inibir a oxidação de outras moléculas. A oxidação é basicamente uma reação química que transfere elétrons e uma substância para um agente oxidante. Reações de oxidação podem produzir radicais livres que danificam as células.

Os radicais livres são formados naturalmente no corpo e desempenham um papel importante em muitos processos celulares normais [6,7]. Em altas concentrações, no entanto, os radicais livres podem ser perigosos para o corpo e danificar todos os principais componentes das células, incluindo DNA, proteínas e membranas celulares. O dano às células causadas por radicais livres, especialmente o dano ao DNA, pode ter um papel no desenvolvimento de câncer e outras condições de saúde

Para neutralizar os radiais livres, o corpo produz antioxidantes. Estes também podem ser encontrado em frutas e vegetais. Alguns estudos têm mostrado que as pessoas que comem mais frutas e vegetais têm uma menor incidência de câncer e doenças cardíacas e viver mais tempo [8,9]. Se as frutas e legumes contêm antioxidantes, e as pessoas que comem frutas e legumes são mais saudáveis, então as pessoas que tomam antioxidantes suplementares também devem ser mais saudáveis. A lógica parece ser um pouco obvia, mais antioxidantes é melhor…porém, em biologia principalmente, a linearidade das coisas não é uma regra. Sobre como esse tipo de raciocínio é extremamente falho nas ciências biológicas já escrevi um texto [ver aqui]..voltando ao mundo biomolecular, o efeito contraditório que o excesso de antioxidantes fazem ao organismo é chamado de paradoxo dos antioxidantes.

A suplementação de antioxidantes, nos alimentos ou nos comprimidos, baseia-se na crença de que os radicais de oxigênio e outras “espécies reativas de oxigênio” desempenham um papel em muitas doenças humanas causando “dano oxidativo” e que a diminuição do dano oxidativo atrasará ou impedirá Desenvolvimento da doença. Porém um dos desafios da área é medir com precisão o equilíbrio redox ( oxidação/redução) no corpo antes e depois das terapias. Alguns estudos da área pensam que o paradoxo talvez possa ser contornado através do uso de antioxidantes específicos e anti-inflamatórios também específicos, ao invés de usar qualquer cesta recheada dessas espécies [10]. E o mais importante: saber exatamente o que está acontecendo no corpo para saber quando usar ou não as terapias antioxidantes.

O importante é frisar outro ponto, além das incertezas de algumas respostas dos suplementos alimentares. Se o consumo exagerado não ajuda na saúde como imaginávamos? Por que tais suplementos são vendidos sem qualquer prescrição médica ou qualquer cuidado?

Bem para tentar responder isso, teríamos que voltar nos anos 70 nos EUA quando a FDA-Food and Drug Administration tentou protocolar restrições ao uso de polivitamínicos. Executivos da indústria recrutaram William Proxmire, um senador democrata de Wisconsin, para apresentar um projeto de lei que impede a FDA de regulamentar estes suplementos. Em 14 de agosto de 1974, a audiência começou ao final, dois anos depois em 76, FDA perdeu o processo. Deste então, o consumo de multivitamínicos aumentou.

Hoje a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, pelo menos, um terço da população global tome esses complexos polivitamínicos diariamente. E por aqui não é muito diferente. Seguindo o modelo americano, onde o mercado de suplementos movimenta mais de US$ 28 bilhões por ano, a indústria brasileira conta com uma grande diversidade de produtos, já que não faltam consumidores que optam pelo uso muitas vezes sem controle, pois desconhecem os riscos. E este é o ponto principal deste texto. Não importa a classificação que é dada entre medicamento ou suplemento se você desconhece os riscos de ambos ou assume que um não tem tanto risco assim. A frase clichê de Parecelto ainda é válida aqui, onde o afirma que a diferença entre um veneno e o medicamento é a dosagem. E isso de fato é válido para muitas coisas na vida também, acho que menos para a informação…

Até o próximo texto

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Referências e leituras

[1] The Effect of Vitamin E and Beta Carotene on the Incidence of Lung Cancer and Other Cancers in Male Smokers. N Engl J Med 1994; 330:1029–1035 April 14, 1994.

[2]Krinsky NI, Peacocke M, Russell RM. Antioxidant Vitamins, Cancer, and Cardiovascular Disease. N Engl J Med. 1996 Oct 3;335(14):1066–7;

[3] Goodman GE, Thornquist MD, Balmes J, Cullen MR, Meyskens FL Jr, Omenn GS, Valanis B, Williams JH Jr. The Beta-Carotene and Retinol Efficacy Trial: incidence of lung cancer and cardiovascular disease mortality during 6-year follow-up after stopping beta-carotene and retinol supplements. J. Natl Cancer Inst. 2004 Dec 1;96(23):1743–50.

[4]Miller ER, Pastor-Barriuso R, Dalal D, Riemersma RA, Appel LJ, Guallar E. Meta-Analysis: High-Dosage Vitamin E Supplementation May Increase All-Cause Mortality. Ann Intern Med. 2005;142:37–46.

[5] Klein EA, Thompson IM, Tangen CM, et al. Vitamin E and the risk of prostate cancer: the Selenium and Vitamin E Cancer Prevention Trial (SELECT). JAMA 2011;306(14):1549–1556.

[6] Diplock AT, Charleux JL, Crozier-Willi G, et al. Functional food science and defence against reactive oxygen speciesBritish Journal of Nutrition 1998; 80(Suppl 1):S77-S112.

[7] Valko M, Leibfritz D, Moncol J, et al. Free radicals and antioxidants in normal physiological functions and human diseaseInternational Journal of Biochemistry & Cell Biology 2007; 39(1):44–84.

[8]. Lee CY, Isaac HB, Wang H, Huang SH, Long LH, Jenner AM, Kelly RP, Halliwell B. Cautions in the use o.f biomarkers of oxidative damage; the vascular and antioxidant effects of dark soy sauce in humans. Biochem Biophys Res Commun. 2006;344:906–11.

[9] Vissers MN, Zock PL, Leenen R, Roodenburg AJ, van Putte KP, Katan MB. Effect of consumption of phenols from olives and extra virgin oil on LDL oxidizability in healthy humans. Free Radic Res. 2001;35:619–29.

[10] Kim YS, Young MR, Bobe G, Colburn NH, Milner JA. Bioactive food compounds, inflammatory targets, and cancer prevention. Cancer Prev Res (Phila) 2009;2:200–8.

[11] Barry Halliwell. The antioxidant paradox: less paradoxical now? Br J Clin Pharmacol. 2013 Mar; 75(3): 637–644.

Zero hora: Quem é o empresário gaúcho que venderá fosfoetanolamina nos EUA

New York times : Don’t Take Your Vitamins

Saber atualizado: O que é o Paradoxo dos Antioxidantes?

National Cancer Institute : Antioxidants and Cancer Prevention

Zero hora: Uso indiscriminado de suplementos vitamínicos pode causar problemas que vão de cálculos renais a câncer

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