Devaneios dos Limites científicos

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Narval – Uma baleia com chifres – Paul Nicklen/National Geographic Creative

Devemos acreditar na ciência?  Na verdade, a grande maioria dos cientistas não gostam de falar da ciência como uma questão de crença. De fato, um ponto que diferencia, quase fundamentalmente, a ciência e  uma crença é a fé, que por si só é algo não condizente com o pensamento científico, mas vital nas crenças, religiões e por que não também as famigeradas pseudociências. No século 17, um matemático e filósofo francês, Blaise Pascal, postulou que há mais ganhos pela existência de um deus do que pela não existência, e que uma pessoa racional deveria pautar sua existência, mesmo que a veracidade da questão não possa ser conhecida  de fato . O postulado ficou conhecido como Aposta de Pascal.

A aposta de fato era simples: Se deus não existir, mas eu decidir acreditar nele, talvez eu não perca muita coisa. Talvez alguns domingos e julgamentos morais desnecessários. Porém se existir e eu não acreditar nele  eu estarei encrencado e condenado.  Pascal postulou suas ideias em um contexto cristão, então por principio ele ignora a prerrogativas de outras religiões e ou outros deuses como “salvadores”, além disso, a lógica é sustenta não por evidencias mas por argumentativas de medo e de custo. Ou seja, são ideias que vão na contra-mão do pensamento científico moderno,  que pela ausência de evidências, não poderia se validada.

A ausência de evidências porém não significa evidência da ausência, essa premissa só é verdadeira para um argumento lógico que possa ser verificados e justificados. Ou seja, eu posso supor ou acreditar que existam unicórnios invisíveis voadores. Porém não é algo que eu posso verificar. Bastaria eu achar um  espécie, ou fósseis para que esse fato ou hipótese seja verdadeiros. Porém, não encontramos espécies tão peculiares assim. A incapacidade de invalidar uma hipótese não torna ela verdadeira. A carga de provar a existência de um unicórnio invisível voador cabe a quem está afirmando, não a quem está duvidando perante a ausência de provas. Sobre o Ônus da prova, Carl Sagan, em seu livro, “O mundo assombrado pelos demônios” tem um excelente texto  onde expõem mais alguns pontos( leia aqui: Um Dragão na Minha Garagem).

Em outras palavras, a hipótese de deus não pode ser falseada, ou seja passar por teste de falseabilidade. Mas de fato, o que seria esse teste? o que é falsear um ideia? Já discuti  vagamente sobre o tema em outras postagens deste blog como em Devaneios dos limites pseudocientíficos ou A ciência é arrogante? Nos dois texto discuto um pouco sobre como compreender o que de fato é um pensamento cientifico e o que é pseudocientífico além de mostrar pontos de como o pensamento é muito mais humilde do ponto de vista de explicar os fenômenos naturais. Hoje  ampliaremos mais esse universo.

A possibilidade de uma hipótese ou teoria ser refutada hoje é o que constituem a própria essência da natureza científica porém nem sempre foi assim. No início do século passado, a ciência parecia ter atingido o auge do prestígio.  A utilização e aplicação das técnicas produzidas pelo conhecimento científico produziu um progresso dos meios de produção industrial, na agricultura e telecomunicações, no qual permitiu avançar mais em dois séculos do que nos outros mil anos anteriores.

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Esse progresso acelerado colocou o conhecimento científico numa posição de destaque no século 19. Nessa época o pensamento científico se baseava muito no método de pesquisa chamado de Indução como critérios válidos para a aceitação de qualquer conhecimento. Segundo esse método, os pesquisadores fariam uma coleta de observações particulares e as organizariam. Dessas observações viriam outras, e outras mais finas e particulares, até o ponto onde experimentos não seriam necessários para se verificar certos pressupostos. A partir dos resultados desses experimentos – totalmente controlados – seriam tiradas conclusões universais sobre fenômenos.

De fato esse método de pensamento cientifico é bastante eficiente, porém ela não trata de uma verdade lógica, mas de observações. O problema  nesse pensamento é a pretensão neste tipo de raciocínio: Da conclusão de um caso particular em um geral. E foi exatamente esse o ponto de partida do filósofo Karl Popper(1904-1994) em sua crítica ao método indutivo. O princípio então proposto por Popper, em vez de buscar a verificação via experiências empíricas que confirmassem uma hipótese, se preocupou em provar que ela era falsa. Quando a hipótese resiste à refutação pela experiência ela pode ser considerada provada. A esse raciocínio, chamamos de princípio  falseabilidade.

Um exemplo clássico dessa discussão é feito do experimento da observação de ganso ou cisnes. Porém, vou usar urubus aqui. Supondo que deste criança você observa que urubus são pretos, você viaja nas suas férias e observa em outras cidades que nelas urubus também são pretos. Você ver filmes americanos onde urubus são pretos. Desta premissa de observações. Você conclui que todos urubus são pretos. Até que um dia, no parque:

Urubu-rei

Urubu-rei

Você se depara com um Urubu-rei, que é majoritariamente branco. Assim Você passar crer existam urubus pretos e urubus brancos, até que novamente.

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Abutre barbudo

Aqui o leitor esperto já deva ter “induzido” que a logica indutivo é falha em afirmações gerais, pois como no caso dos urubus, sempre pode surgir uma de cor diferente. Na biologia especialmente, esse tipo de pensamento falha horrivelmente. Pois, por mais que possamos afirmar que não existam baleias com chifres, a imagem que inicia esse texto já apresenta um narval, que é uma baleia com chifres.

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Até Popper, a lógica era que cientistas fizessem experimentos para validade suas ideia. Porém provar uma hipótese é praticamente impossível, mas nega-la não. Desse modo, você precisar criar uma teoria e provar com experimentos a fim de derrubar a mesma e não em concordar, como vinha sendo feito até então. Na ciência moderna, o que torna uma hipótese científica boa não é o fato dela ser confirmar, mas dela não ter sido mostrada falsa.

Na física,  a famosa teoria de Newton sobre a gravitação são falseáveis, tanto que no clássico experimento do eclipse, no qual Einstein provou que a luz era afetada pelos campos gravitacionais e o posteriormente, provou-se que relógios quando colocados e alta velocidade em relação a terra, apresentam pequenos atrasos quando comparados com relógios idênticos mantidos em perfeita sincronia. Disso, tira-se por exemplo que o tempo dilata-se e não é mais absoluto. Porém, isso não invalida as proposições de Newton, para velocidades cotidianas.

Por outro lado, seguindo as definições e o conceito da falseabilidade de Popper, a astrologia, como algumas outras pseudociências,  não pode ser considerada científica. Pois não existem experimentos possíveis que possam falsear a teoria de que a posição de determinados corpos celestes afetam a vida de pessoas nascidas em determinado período de determinada forma. A abrangência das previsões e a falta de um modelo claro, além do que havia mencionado em  As bobagens perigosas da astrologia, tornam a astrologia não falseável e, portanto, não científica.

 A ciência e os cientistas buscam rejeitar sempre suas próprias hipóteses! Por isso que a palavra Teoria, em ciência, é muito forte, pois já passou por muitos testes para provar. Uma vez rejeitada uma hipótese, acabou. Ela está errada. E é justamente isso que cientistas fazem; trabalham incansavelmente para: rejeitar as próprias hipóteses! Estamos a todo o momentos tentando provar que estamos errados! Diferentemente das pseudociências e outras disciplinas não científicas, como a psicanálise, que não se enquadra como como científica, apesar de muitas vezes se venderem como tal. Bem mais sobre isso deixa pra outro dia.
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Referências e leituras

Popper,K. Conjecturas e refutações. Brasília: UNB, 1972.

Popper,K. The logic of Scientific Discovery,1934

Paradigmas: Karl Popper, a Questão do método cientifico e seus critérios

Café na bancada :Os gansos e a Falseabilidade de Popper – Vamos falar de Ciência?

Jornal Contato: Ciência, Popper e Kuhn (coluna lição de mestre)

Barderzineblog : El psicoanálisis no es una ciencia

M. L. Smith y G. V. Glass, Meta-analysis of Psychotherapy Outcome Studies, American Psychologist, 32, 1977, p.752-760

Fronteiras: Elisabeth Roudinesco: “Progresso só existe na ciência. Na psicanálise, existem transformações.

Anti-cast- 194- A ciência é cética?

Coisas que vieram da minha cabeça enquanto escrevia

 

 

 

 

 

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3 comentários sobre “Devaneios dos Limites científicos

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