Pensamento dispersos de uma futuro esquecido: o ministério da ciência, tecnologia e etc.

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Nas últimas semanas, o imbróglio político de tantas incertezas chegou a possível indicação de um líder religioso ao ministério da ciência e tecnologia (MCTI). Como qualquer pessoa sensata e lúcida fiquei surpreso, mas não tanto. Pensei nos últimos acontecimentos que envolvem a ciência brasileira nos últimos 18 meses. O Zika vírus e a microcefalia, o curanderismo da Fosfoetanolamina, O descaso em Mariana, o H1N1, Licenciamento Ambiental, negligencia da engenharia na ciclovia. O pastor como Ministro de Ciência e Tecnologia e ontem a fusão com Ministério de Comunicação acaba sendo só mais um fato crítico de nossa política, muito mais atrelado as negociatas dos ministérios, porém este texto não tratará da política brasileira, pois esta já é muito confusa e seletiva.

O MCTI é o ministério responsável pela formulação das políticas de pesquisa científica tecnológica e acima de tudo da inovação. Só verificarmos abaixo número de instituições diretamente ligadas a esses ministérios. Listei abaixo todas:

Agência Espacial Brasileira Alcântara Cyclone Space
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas Centro de Gestão e Estudos Estratégicos
Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer Centro de Tecnologia Mineral
Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste Cemaden Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Nacionais
Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada S.A
Comissão Nacional de Energia Nuclear Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial Financiadora de Estudos e Projetos
Indústrias Nucleares Brasileiras Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
Instituto Nacional de Tecnologia Instituto Nacional do Semi-Árido
Laboratório Nacional de Astrofísica Laboratório Nacional de Computação Científica
Museu de Astronomia e Ciências Afins Museu Paraense Emílio Goeldi
Nuclebrás Equipamentos Pesados Observatório Nacional
RNP – Rede Nacional de Ensino e Pesquisa
Representação Regional do MCTI no Nordeste Representação Regional do MCTI no Sudeste

A notícia de um líder religioso assumir um cargo técnico, como o caso do MCTI, não me espanta tanto como é possível de imaginar, pelo menos na sociedade brasileira de maioria cristã. Os demais ministros desta pasta possivelmente tinham uma religião e isso não foi argumento para ele ser um bom ou péssimo ministro (mais ou menos). Porém algumas falas deste são um tanto comprometedora como por exemplo a crença na criação do nada, ou melhor dizendo, no criacionismo. Sim! isto foi dito ao longo de uma entrevista [ http://migre.me/tKjUW]. Além de frases como:

E sobre darwinismo? Eu respeito é uma posição pessoal

Eu realmente, não entendo o que ele quer dizer com isso. Particularmente, não vejo a opinião dele tão diferente da grande maioria dos deputados que estão hoje lá no congresso, assim como de parte da população. Recentemente passamos por algumas cenas lamentáveis com a possibilidade da descoberta de uma pílula do câncer que prometia curar o câncer. Sobre isso, escrevi alguns textos (A Pílula do Câncer – pt. 1A Pilula do Câncer – pt. 2A Pílula do Câncer – pt. 3)

O analfabetismo científico é crônico. Mas não algo exclusivo de nosso país, para uma comparação rasa como nosso vizinho do norte rico (EUA). Após ouvir cerca de 10 mil alunos de graduação nos EUA, pesquisadores descobriram que só 35% discordavam da ideia de que ETs teriam visitado civilizações antigas da Terra e ajudado a construir monumentos como as pirâmides do Egito. Além disso, mais de 40% disseram que antibióticos matam tanto vírus quanto bactérias (só as bactérias são vulneráveis a esse tipo de medicamento).

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Analfabetismo ciêntifico nos EUA.  Fonte: Folha de S. Paulo

Outra pesquisa também no norte, realizada pela Fundação nacional de ciência mostra que metade dos adultos compreendem que a terra gira em torno do sol anualmente e que apenas 21% conseguem definir o DNA. Outra pesquisa, Pew Research Center, avalia que menos da metade da população sabe o que é um laser e quase 40% têm dificuldades sérias para dizer o que é uma reação química –pensam, por exemplo, que a água em ebulição se enquadra aí. Para o astrônomo Chris Impey, os números refletem um problema do país: os alunos de ensino médio não precisam fazer cursos de ciência. A maioria estuda biologia, mas menos de metade tem aulas de química e só um quarto estuda física.

Avaliações desse tipo são escassas no Brasil. Na última avaliação do programa Internacional de avaliação de estudantes (Pisa) de 2012. Mostrou que o desempenho dos alunos brasileiros nas provas de matemática, leitura e ciências, melhorou nos últimos 10 anos, porém o país ainda ficou em 59º lugar em ciências em um ranking de 65 países.  internamente, o país ainda apresenta grandes diferenças entre os estados.

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Média do PISA 2012 para os estados. Fonte: O globo

As deficiências em matemática, leitura e análise de gráficos são reflexos de uma educação precária e muitas vezes molda as necessidades de vestibulares e concurso. Isso não se deve também ser resumido ao ensino das ciências, mas nas modificações profundas em todos os componentes de instrução e formação.

Em uma entrevista a sociedade brasileira do progresso da ciência (SBPC), Isaac Roitman, professor emérito e coordenador do Núcleo do Futuro (UnB), para reverter essa vergonhosa posição no PISA é preciso que haja uma inflexão da divulgação e a popularização da ciência e que o público-alvo sejam as crianças, adolescentes e adultos.

A ciência deve ser matéria diária nos vários veículos da mídia: jornais, revistas, rádio, televisão, web, etc. Essas matérias devem abordar desde a história da ciência, as grandes descobertas científicas e mostrar a aplicação dos resultados das descobertas no cotidiano da vida de cada um. 

Grande parte da população sabe da importância da ciência, uma pesquisa divulgada pelo MCTI([Pesquisa completa aqui ). O tema é o quinto que mais atrai a atenção da população – está atrás de Medicina e Saúde (78%), Meio Ambiente (78%), Religião (75%) e Economia (68%). O interesse por C&T é maior que em Arte e Cultura (57%), Esportes (56%), Moda (34%) e Política (27%). Porém o acesso à desinformação ainda é grande.

Para se ter uma ideia, apenas 6% da população lembra o nome de um cientista brasileiro e 12% o nome de uma instituição de pesquisa (sabe aquelas do MCTI  que citei lá em cima). “Acredito” que esta percepção da população seja idêntica de nosso congresso, um espelho.

Um ministro para assumir um cargo deste, deveria ser uma pessoa com compreensão não de saber, por exemplo, quem é Cesar Lattes (sabe a plataforma lattes?) mas entender parte do processo da construção do conhecimento científico e que isso requer capacitação/formação além de tempo para tal. Saber as distinções entre a pesquisa básica e aplicada e suas importâncias. Tais questões são importantes para facilitar o diálogo dos limites éticos de uma pesquisa com células-tronco ou o uso abusivo de antibiótico. A recente fusão do MCTI com o da comunicação é um tanto esdrúxula para um ministério que deveria ser autônomo.

É uma diminuição da ciência. É claramente necessário reduzir ministérios. Mas isso precisa ser feito com sabedoria – afirma o presidente da ABC.

 Em manifesto da SBPC, com apoio de outras 11 entidades, explica muito bem como são pautadas as ações desses ministérios:
O leque de atividades na área das comunicações inclui concessões de emissoras de rádio e televisão, empresas de correio, governança da internet, fiscalização de telefonia e TV paga. Na área do MCTI, estão o fomento à pesquisa, envolvendo inclusive a criação de redes multidisciplinares e interinstitucionais de pesquisadores, programas temáticos em diversas áreas importantes para a sociedade brasileira, fomento à inovação tecnológica em empresas, administração e fomento das atividades envolvendo energia nuclear, nanotecnologia, mudanças climáticas e produção de radiofármacos, entre tantas outras. O MCTI é responsável ainda por duas dezenas de institutos de pesquisa, envolvendo pesquisa básica e aplicada em um grande número de temas: da biodiversidade amazônica a atividades espaciais; da matemática pura ao bioetanol; da computação de altíssimo desempenho ao semiárido nordestino.

Muitas das ações das possibilitaram o intercambio científico com diversas instituições internacionais o que alavancaram a produção científica brasileira. Portando inclusão de pautas tão distintas em um mesmo ministério é um retrocesso. Além disso, há enorme possibilidade do futuro ministro pertencer ao quadro de analfabetismo científico, mesmo que este tenha méritos administrativos. O que esperar das decisões desse ministério?

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 Leituras e Referencias

Revista Educação – Analfabetismo científico

Ciência hoje – Brasileiro analfabeto cientifico?

Instituto Abramundo : Indicador de Letramento Científico 2014

Uol noticias : Possível ministro da Ciência é criacionista, mas diz respeitar darwinismo

Relatório MCTI : Percepção Pública da C&T no  Brasil 2015

The washington post : Americans are still scientifically illiterate — and scientists still need a PR team

Folha de S. Paulo : Estudo do analfabetismo cientifico nos EUA tem resultados preucupantes.

O globoResutados do PISA 2012

Mullins, D. The science literacy crisis, philosophical issues, and the origin sciences,  Origins of life and evolution of the biosphere journal,V5, 1995.

 

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