A Pilula do Câncer – pt. 2

 

cancer_celulasEm agosto de 2015, diversas entrevistas ocorridas com o professor aposentado da USP Dr. Giberto Cheriche sobre a síntese e distribuição de uma pílula, capaz de curar o câncer, levou parte da população solicitar a pílula através de recursos judiciais sem as análises clínicas fossem realizadas. Sobre estes acontecimentos, fiz um breve resumo que pode conferir aqui:

Pilula do câncer-Parte 1 (Recomendado ler antes)

No último dia 18 os cinco primeiros relatórios das pesquisas financiadas diretamente pelo ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para avaliar a segurança e eficácia da Fosfoetanolamina indicaram que a substância não é pura, como afirmavam seus criadores, e que ela não apresenta eficácia contra células cancerígenas em testes in vitro. O relatório sobre os estudos da síntese e caracterização química da molécula realizados pelo LASSBIO/UFRJ mostrou que a composição da pílula contém apenas 32,2% de fosfoetanolamina. A figura 1 apresenta a distribuição média dos componentes da pílula.

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Testes feitos com os componentes da cápsula em células humanas de câncer de pâncreas e melanoma apontaram que a fosfoetanolamina não apresentou nenhuma atividade citotóxica nem antiproliferativa, mesma conclusão obtida em relação à fosfobisetanolamina. Uma outra substância, monoetanolamina, apresentou capacidade de reduzir a proliferação de células com câncer. Porém, abaixo da capacidade dos tratamentos já disponíveis. Os relatórios reiteram que, apesar dos testes in vidro não terem demonstrado potencial antitumoral, são recomendados testes in vivo,(que utiliza animais de pequeno porte), a qual devem estar pronto em meados de abril/maio. Mais detalhes do relatório podem ser consultados aqui: [http://migre.me/tt2T9]

Como havia descrito no texto anterior, o efeito placebo é importante no processo de bem-estar dos pacientes e de cura de algumas doenças. Um estudo de 2002, “placebo effects in Oncology” (Chvetzof & Tannock,2003) avaliou o efeito placebo em pesquisas utilizando novas drogas contra o câncer. As conclusões deste estudo revelaram que ouve redução da dor em 21% dos casos, melhora do apetite (8% a 27%), aumento de peso (7% a 17%) e até redução do tumor (3%). Para entender melhor sobre placebo, recomento um texto simples e lúcido sobre o assunto aqui: http://migre.me/tt14R

No início dos anos 80, a fosfoetanolamina apareceu no sentido contrário ao da cura, como catalizador de células tumorais. Em dois artigos [ Kano-Sueoka et all,1979 e 1981] observaram em seus testes que o estrato de glândula putuitária bovina era capaz de estimular o crescimento de células cancerígenas. Notaram posteriormente que o crescimento era estimulado pela fosfoetanolamina.

É obvio que tanto o efeito placebo na cura do câncer, quanto a possibilidade desta substancia ser catalizadora de câncer, só reforçam o argumento de que pouco se sabe-se sobre esta substância em relação ao combate tumoral. No entanto, mesmo diante da maior fatia de fatos contraditórios a substância, mesmo que pouco “divulgado” ao grande público. Os “imbróglio” da pílula acabam por colocar paciente e médicos em posições contrárias quando estes questionam a substância. Como discutido na reportagem da folha de S. Paulo [http://migre.me/tsZk]. No dia 07/04, um carta da comunidade médica, ABRASCO médica, alertando dos risco de libera esta pilula sem as devidas analises necessárias [http://migre.me/tt2YX]. Mesma postura do Conselho federal de medicina [http://migre.me/tt35p].

Mesmo que com o resultado cientifico e clínico acerca da pílula se mostrarem negativos e com deveras dúvidas sobre da substancia. No dia 23/03/2016. O Plenário do Senado aprovou o Projeto de Lei da Câmara (PLC) que autoriza pacientes com câncer a usarem a fosfoetanolamina sintética antes de seu registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) [http://migre.me/tt2yk]. Felizmente, O STF decidiu proibir a fabricação de mais fosfoetanolamina citando a falta de estudos (confiáveis) que atestem sua eficácia e segurança. [http://migre.me/tt2wp]

Dias antes da decisão do STF. A USP realizou uma denúncia de curandeirismo ao Ex-Professor Dr. Gilberto Chierice por ter prescrito, ministrado ou aplicado a substância para a cura de doenças. [http://migre.me/tt2C5]

Do meu ponto de vista, O professor Gilberto Chierice foi extremamente irresponsável mesmo que com “boas intenções”. Porém, a ciência não vive de boas intenções (entre outras coisas que as pessoas querem acreditar). O site whatstheharm.net relatam uma coleção de histórias de pessoas que acreditaram em tratamentos ditos alternativos, místicos/holísticos etc. Muitos das histórias, acabam em morte e ou graves sequelas.

O ponto importante e que deve ser sempre ressaltado é que a única maneira de saber a eficácia deste composto é deixar a ciência fazer seu trabalho, com o tempo necessário, e não tentando passar por cima com leis judicias. Ao mesmo tempo, já se cogita a ideia de liberar o consumo como um suplemento alimentar [http://migre.me/tt3Tu], isto a meu ver, só acaba por fomentar ainda mais o misticismo e a ignorância sobre um assunto, deveras complexo como o câncer.

Hoje, mais do que nunca, é necessário explicar de forma clara e simples como seriam nossas vidas se não existissem todas as regras na experimentação e uso de medicamentos, como também ouvir os próprios pacientes.

Leia a parte 3 aqui : A Pílula do Câncer – pt. 3

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Referencias e leituras

Pílula do câncer parte 1 http://migre.me/tt2U1

Relatório MCTI sobre pílula http://migre.me/tt2T9

Carta da ABRASCO http://migre.me/tt32A

Posicionamento do CFM http://migre.me/tt35p

Reportagens

G1-Senado aprova projeto que libera uso e fabricação da ‘pílula do câncer’ 22/03/2016 [http://migre.me/tsZk]

Estadão – Presidente do STF suspende fornecimento de pílulas do câncer pela USP 05/04/2016 [http://migre.me/tt2wp]

Folha de S.Paulo -‘Pílula do câncer’ fez de médico e paciente ‘adversários’, diz oncologista 29/03/2016 [http://migre.me/tsZkF]

G1- USP denuncia pesquisador que criou a ‘pílula do câncer’ por curandeirismo 30/03/2016 [http://migre.me/tt2C5]

Zero Hora Fosfoetanolamina foi relacionada a câncer de mama em estudo de 1979 -30/03/2016 [http://migre.me/tt2XA]

Universo Racionalista- O fiasco com a fosfoetanolamina mostra que “de boas intenções, o inferno está cheio” 03/04/2016 [http://migre.me/tt14R]

G1- Ministro quer que fosfoetanolamina seja legalizada como suplemento 30/03/2016 [http://migre.me/tt3Tu] Observatório da imprensa – Justiça para Mario Rodriguez 22/10/2015 [http://migre.me/ttmUF]

Artigos

Giséle Chvetzoff, Ian F. Tannock. Placebo Effects in Oncology. Journal of the National Cancer Institute (2003) 95 (1):19-29. Kano-Sueoka, Cohen D. M, Yamaizumi Z, Nishimura S., Mori M., Fujiki H. Phosphoethanolamine as a growth factor of a mammary carcinoma cell line of rat. PNAS, November 1, 1979 vol. 76 no. 11. 5741–5744

Tamiko Kano-Sueoka, Janice E. Errick. Effects of phosphoethanolamine and ethanolamine on growth of mammary carcinoma cells in culture. Experimental Cell Research Volume 136, Issue 1, November 1981, Pages 137-145

links

What’s the harm? whatstheharm.net

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5 comentários sobre “A Pilula do Câncer – pt. 2

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